Objetos com Problemas de Comunicação

by Yael Carvalho Torres

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1.
Idioleto 01:51
lacuna preenchida um cadafalso improvisado panegírico ensurdecedor a voz é um privilégio que obseda quem transita megafone privatizado no féretro o meu louvor aos deicidas à minha esquerda os despojados um tiro no calcanhar idiossincrásico seu bovarismo chega a ser emético meu passadismo é um refúgio pérfido onde encontro o êxtimo alienista o apanágio dos famintos intumescência casuística a peia vem mesmo atrasada um anestésico para sua cólera
2.
no primeiro sonho eu comi as flores que guardei no meu bolso para te entregar é que depois que adentrei o restaurante dei de cara com você sentada numa mesa de mãos dadas com seu amante at the diner with your lover, eating flowers from my pocket at the diner with your lover, all the stars no segundo sonho eu tocava os seus dedos eram teclas de piano que soaram assim: uuuuh uuuh uh uuuuh uuuuuh but our teacher said: -why don't you go home? there's no room for poems or silly songs about love
3.
sobre a mesa o verso está remendando novas formas com antigos imortais eu passeio com os dedos imundos pelas estrofes patéticas que inventaram o oculto já não há mais simulacro algum com os pés descalços tu vens do pó mas insiste em não regressar se usando das gargantas a mensagem nunca chega sem ruídos e lacunas que tornamos abissais os filhos desta nação estão fora de si em suas catedrais incendiaram-se outra vez gritos voam pelas janelas como pétala arrancada na primavera o guardião ajoelha-se diante a mesa onde vai repousar o verso que se refaz sobre a mesa o verso jaz reinventando sempre o mesmo o funeral dos ancestrais é mais um renascimento sobre a mesa o verso está recortando os fragmentos
4.
Gasparzinha 03:08
só deus sabe o quanto eu sofri você deixou um eco nos meus ossos quando você se foi eu só dormi pra onde olho eu só vejo o seu rosto no banco que eu sentava pra sorrir nem mais o gato deita no meu colo e aquela porta que me fez passar eu a selei com todo meu remorso agora só existem sombras no lugar que eu costumava ver você voando pássaro azul que se foi embora ainda tenho você na memória pássaro azul que se foi embora ainda estou preso na minha gaiola só deus sabe o quanto estou sofrendo eternamente preso num momento agora há uma câmera no lugar onde eu te vi voar
5.
Recadinho 00:56
meu coração já não bate tanto quanto ele batia quando eu estava em seu lugar mas mesmo assim ainda sinto que depois de tudo isso você ainda quer chegar naquele chão que eu não piso nem sequer por um trocado que permita-me pagar a cirurgia pro meu cérebro que até hoje falha quando tento me lembrar dos afetos que ligavam os pontos de um desenho deformado que colei nas fechaduras dos meus quartos me trancando como se viver fosse pecado
6.
Afasia 00:28
7.
8.
torto ele gira torto ele fica sem encaixar sem desabar logo penetra quase segura em diagonal em seu local aquele quadro incerto sem perspectiva aquele quadro severo de tão cinza
9.
Mr Vingança 01:45
enquanto valso eu pelo verso tropeço, abro e dilacero o metro sacro inteligível do corte jorra uma cantiga sem língua, estranha harmonia que chora como um surdo mudo
10.
enquanto caminho pelo mesmo trajeto que faço desde os doze anos de idade mais ou menos a idade em que minha mãe passou a me deixar sair sozinho de casa encontro um disco do alceu valença abandonado sobre uma poça d'água não é o espelho cristalino sequer é um disco que eu tenha ouvido mas fico angustiado com aquela paisagem é como se o destino de todo futuro disco fosse o lixo me pergunto por que ainda faço música no sentido de registrá-la não sonho mais com a ideia de fazer turnê não gosto muito de sair de casa então me lembro que para além da caricatura ou da hipótese ficcional um registro pode ser uma forma de fazer ecoar um afeto enclausurado é por isso que eu grito não tenho muito pra contar mas é muito o que eu sinto quando olho para trás e vejo que ainda sigo o mesmo caminho, no mesmo ritmo fingindo sempre estar dilacerando um passado absoluto seu espectro soberano

about

A vida e suas "inevitáveis contingências" me levaram a adiar por tempo indeterminado a gravação em estúdio do que viria a ser este disco. Decidi então lançá-lo assim mesmo como está, despido, para que o passar do tempo não apague a imposição momentânea que estas canções tiveram sobre mim.

credits

released September 3, 2019

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