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Jorge de Lima
02:25
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Invenção de Orfeu // I CANTO - Fundação da Ilha // X
Os rios que passam,
os rios que descem,
já foram cantados
por muitos.
Os rios parados
na face do tempo,
porém mais velozes,
são rios.
Os seus afogados
jamais conseguiram
descer apressados
pra o mar.
As luas que neles
se espelham constantes
não tem suas fases,
não mudam.
Pois que, esses rios
são rios do espaço
com as águas do tempo
velozes.
Mas se eles parassem
abaixo das faces...
Que parem! Quem importa!
Eu não.
Mas se eles corresem
com as faces passadas,
presentes, futuras,
seriam.
Os rios não são
parados ou rápidos
alegres ou tristes,
são rios.
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2. |
Augusto Meyer
01:45
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Últimos Poemas (1950-1955) // Orfeu
O dia morto nos meus ombros pesa
A sombra se deita na estrada comprida
Mas o leite da luz inunda a terra
E no meu gesto claro vive a vida.
Serei o sulco onde germinam sementeiras
As mil faces do amor me acompanham
Demônio, pólen das loucuras, anda!
Agita os mares, os ventos, as seivas.
Venho do fundo da amargura e me transformo
Na frauta leve das auroras, glória!
O dom da vida vibra no meu sopro
O hino sacode o turbilhão das forças
Rompe as fontes seladas, aleluia!
Que pura música atravessa o mundo?
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3. |
Murilo Mendes
01:35
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Poemas // Mapa (fragmento)
Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colegio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me
chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
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Yael Carvalho Torres Rio De Janeiro, Brazil
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