/
  • Streaming + Download

    Purchasable with gift card

     

1.
Invenção de Orfeu // I CANTO - Fundação da Ilha // X Os rios que passam, os rios que descem, já foram cantados por muitos. Os rios parados na face do tempo, porém mais velozes, são rios. Os seus afogados jamais conseguiram descer apressados pra o mar. As luas que neles se espelham constantes não tem suas fases, não mudam. Pois que, esses rios são rios do espaço com as águas do tempo velozes. Mas se eles parassem abaixo das faces... Que parem! Quem importa! Eu não. Mas se eles corresem com as faces passadas, presentes, futuras, seriam. Os rios não são parados ou rápidos alegres ou tristes, são rios.
2.
Últimos Poemas (1950-1955) // Orfeu O dia morto nos meus ombros pesa A sombra se deita na estrada comprida Mas o leite da luz inunda a terra E no meu gesto claro vive a vida. Serei o sulco onde germinam sementeiras As mil faces do amor me acompanham Demônio, pólen das loucuras, anda! Agita os mares, os ventos, as seivas. Venho do fundo da amargura e me transformo Na frauta leve das auroras, glória! O dom da vida vibra no meu sopro O hino sacode o turbilhão das forças Rompe as fontes seladas, aleluia! Que pura música atravessa o mundo?
3.
Poemas // Mapa (fragmento) Me colaram no tempo, me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo, a leste pelo apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação. Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido, depois chego à consciência da terra, ando como os outros, me pregam numa cruz, numa única vida. Colegio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia. Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando aos solavancos. Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado, gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar, alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal. Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter, tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos, não acredito em nenhuma técnica. Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas, é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários, depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas, na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim. Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações... Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça. Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando, presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção, o mundo vai mudar a cara, a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

credits

released March 22, 2020

Imagem da capa: "Natureza morta" de Carlos Scliar

license

all rights reserved

tags

Yael Carvalho Torres recommends:

If you like Yael Carvalho Torres, you may also like: