AUTOFAGIA

by Yael Carvalho Torres

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1.
O rockstar morreu, virou estampa Copie e cuspa o poema do gringo Compre guitarra para esnobar seus vizinhos Lembra da quadra de queimado? Agora desça do meu palco! Deixa eu te ensinar como se mente para os pais: Do mesmo jeito que diz para os amigos que fez o que não faz Não dê ordem para o colega, tu nem lava as tuas cuecas
2.
Oniromante 03:15
Eu sou um escravo de sonhos indigestos que aquecem meu cérebro, movimentam os meus vermes A faca amolo na língua transformo a noite em verve Já não há rezar no escuro deus está sempre presente Filhos do mesmo pai agem como se fossem primos aprendem em línguas distintas os mesmos hinos A faca corta meus lábios transforma ferida em fala Já não há rezar de joelhos deus está sempre presente Eu sou um escravo de sonhos vomitados em bocas outras lambendo o que escorre quando papai do céu não sonha
3.
Enquanto caminho pelo mesmo trajeto que faço desde os doze anos de idade, mais ou menos a idade em que minha mãe passou a me deixar sair sozinho de casa, encontro um disco do Alceu Valença abandonado sobre uma poça d'água. Não é o espelho cristalino, sequer é um disco que eu tenha ouvido, mas fico angustiado com aquela paisagem. É como se o destino de todo futuro disco fosse o lixo; me pergunto por que ainda faço música, no sentido de registrá-la. Não sonho mais com a ideia de fazer turnê. Não gosto muito de sair de casa. Então me lembro que para além da caricatura, ou da hipótese ficcional, um registro pode ser uma forma de fazer ecoar um afeto enclausurado. É por isso que eu grito; não tenho muito para contar, mas é muito o que eu sinto quando olho para trás e vejo que ainda sigo o mesmo caminho, no mesmo ritmo. Fingindo sempre estar dilacerando um passado absoluto seu espectro soberano.
4.
No meio do caminho em minha vida despeço-me com pressa de uma amiga que em sua lealdade pouco cínica ouviu meus desabafos e os fez rimas Cansado desse narcisismo lírico desfaço-me da imposição do espírito Encosto agora as coisas ao ouvido escreverei sobre algo além do umbigo
5.
A primeira pessoa do singular em sua ilusão de solitude não compreende que ao se expressar além de falar é escuta A lírica sábia enseja desvelar através da razão um novo mundo Significando sem transformar o emocional num subterfúgio Muita gente quando diz o que sente se esquece de escutar o que já foi dito Por isso acabam por inventar nomes para os falsos vazios; espaços que são ocupados por centenas de espíritos
6.
Sobre a mesa o verso está remendando novas formas com antigos imortais Eu passeio com os dedos imundos pelas estrofes patéticas que inventaram o oculto Já não há mais simulacro algum com os pés descalços Tu vens do pó mas insiste em não regressar se usando das gargantas A mensagem nunca chega sem ruídos e lacunas que tornamos abissais Os filhos desta nação estão fora de si em suas catedrais incendiaram-se outra vez Gritos voam pelas janelas como pétala arrancada na primavera; o guardião ajoelha-se diante a mesa onde vai repousar o verso que se refaz Sobre a mesa o verso jaz reinventando sempre o mesmo o funeral dos ancestrais é mais um renascimento Sobre a mesa o verso está revirando os fragmentos

about

AUTOFAGIA é um movimento reflexivo, as seis músicas aqui coligidas são reinvenções de momentos anteriores da minha sequência de registros. Pela primeira vez decidi entregar o importantíssimo trabalho de produção a uma pessoa que de fato compreende o mexer dos knobs em uma DAW. Esse entregar ao outro é tanto mais simbólico na medida em que as seis músicas escolhidas parecem apontar para uma espécie de dissolução progressiva da melancolia de um Eu fechado em si mesmo.

credits

released February 8, 2021

Capa feita por @aline_fb a partir de uma ilustração contida no livro "Historia de la composición del cuerpo humano" de Juan Valverde
Gravado em casa mesmo
Mixado por Renan Martins e Yael Carvalho Torres
Masterizado por Renan Martins no Meu Quartinho Studio

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